terça-feira, 5 de abril de 2016

Por que ler? Como ler?











Boca da Palavra

Como flertar e penetrar, por fim, no mistério
Se não vencer a dor da entrega?
Apossar-se é ato violento!
Dobra-se uma orelha diante do inexplicável
Recebendo, na volta, o soco inesperado da Verdade. 
Não se trava esta luta sem cair três vezes diante
De si, dos outros e da Verdade.
Não se abre esta janela
Sem a tentação de olhar para fora.
A Boca da Palavra tem hálito doce e ácido.
A Boca da Palavra não fecha mesmo que se chegue ao fim da prosa.
A Boca da Palavra não está na palavra na boca.
A Boca da Palavra está aberta no Livro que descansa sobre o rádio velho, 
Porém, não é a letra inerte.
A Boca degusta,
A Boca mastiga,
A Boca engole.
A Boca da Palavra está em quem ouve e em quem lê,
Mas será muda sem a dor do aprender.


Laocoonte.
_________________________________________________________



  A Boca da Palavra e o Conhecimento

A negação do passado como forma de demonstrar inovação, na verdade, inibe ideias qualificadas. A criação precisa de parâmetros antecedentes.  O retorno à Educação Clássica, por exemplo, resgata técnicas que os métodos considerados modernos deixaram para trás em nome da agilidade e do prazer do aprendizado. Na verdade, não se pode criar atalhos ou anestesiar a dor quando se quer chegar às águas profundas do conhecimento. Aprender é naturalmente dolorido por exigir persistência e dedicação. No mundo dos atalhos, do prazer, da superficialidade e da pressa esta dor não tem espaço.
Quando se fala da Boca da Palavra, se diz das formas com que ela nos chega e como entendemos o que as palavras, frases e conjunto de ideias expressam. Ler é a base de um processo de compreensão do mundo. Diz Mortimer Adler (A Arte de Ler), quem dera se lêssemos como se lê uma mensagem de amor, pois ali se disseca a palavra, a frase, a linha, a entrelinha, os pontos e as vírgulas. A Boca da Palavra está na lição de Francis Bacon, no Sec. XVI: Alguns livros são para degustar, outros para engolir e alguns para mastigar.
 A ação da Boca da Palavra é encontrada na Obra contundente de Susan Bauer, Como Educar sua Mente: Guia para Ler e Entender os Grandes Autores. Refere-se, portanto, a:
-Degustar: chegar ao conhecimento básico;
-Engolir: trazer à compreensão o conhecimento e
-Mastigar: acomodar o conhecimento à sua compreensão. Então, somente neste momento se está realmente apto a expressar conclusões sobre o conteúdo.  
A trilha apresentada, na verdade, segue o Trivium da Educação Clássica:
- Gramática: refere-se ao conhecimento básico de cada temática que se estuda, familiarizando-se com conhecimento;
- Lógica: estágio onde se inicia o exercício das habilidades analíticas, momento em que o julgamento passa a ocorrer, pois se questiona a correção da informação, a causa e o efeito, as conexões com a Ciência, a Históricas e o senso comum;
- Retórica: fase em que se concretiza a defesa das próprias opiniões, através do discurso e da escrita utilizando o conhecimento apreendido e o resultado de suas avaliações.
 A leitura deve ser exercida na sua plenitude como se oferecesse um poderoso propulsor que remete o ser humano à compreender o mundo. Exige, comparativamente, a confiança do aprendiz de natação que larga a borda onde se apoia para dar as primeiras braçadas, sem escoras e sem guias, exercitando a técnica que o mantém acima da água. Ler e aprender exige a coragem de enfrentar a dor, de entregar tempo à palavra e ao entendimento. Mostrando, enfim, que ler e apreender não significa um compromisso escolar, mas sim um compromisso de autonomia perante as coisas do mundo. São para toda a vida. 

O Mundo era minha ostra (Mortimer Adler. A Arte de Ler). 

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário